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O corpo & a falao: o que é somatização, hipocondria e transtorno psicossomático

Autor: admin - Em: 10 de abril de 2026

O corpo & a falao: o que é somatização, hipocondria e transtorno psicossomático

“O que mais afligiu a humanidade não foi a dor em si, mas a falta de uma causa para a dor.“
Nietzsche, A Genealogia da Moral, início da parte 3.

A HIPOCONDRIA é um medo ou um temor infundado que leva o indivíduo a acreditar que ele mesmo possa estar sofrendo de uma doença grave.
A hipocondria é distinta de uma SOMATIZAÇÃO (um sintoma físico percebido pelo paciente e que tem origem emocional), e também se distingue do TRANSTORNO PSICOSSOMÁTICO, que é um estilo de personalidade próprio de indivíduos que sofrem de sintomas físicos por uma falha na capacidade simbólica de pensamento, que acarreta na “alexitimia”, uma incapacidade de nomear os próprios sentimentos, que leva a estrutura psicossomática do sujeito a expressar suas emoções negativas não com a expressão de afetos negativos (tristeza, nostalgia, revolta, irritação, ojeriza), mas com a expressão de dores e sintomas físicos.

Um adágio clássico da psicanálise diz que na neurose, “o corpo fala” (ou seja, os sinais e sintomas corporais expressam algo simbólico), e no Transtorno Psicossomático, o sujeito “fala com o corpo”, ou seja, o sintoma físico funciona no lugar da palavra e do símbolo, ou seja, “o corpo fala o que a boca cala”…
A hipocondria, evolutivamente, é menos grave que o transtorno psicossomático, mas mais grave que a somatização neurótica: a hipocondria é uma elaboração mentalizada de um temor a uma doença específica. Enquanto no neurótico o sintoma físico pode ser reconhecido pelo paciente como um símbolo, se este elaborar a questão em psicoterapia, e no Transtorno Psicossomático o paciente traz uma queixa somática específica (cefaléia, dor osteomuscular, diarreia, dispepsia, lesões dermatológicas), na hipocondria, o sujeito “fala do corpo”: o hipocondríaco imagina e fantasia estar com alguma doença grave e fatal (uma cefaléia pode ser um tumor cerebral, uma diarreia pode ser um câncer de intestino, uma dor lombar pode ser um reumatismo grave…)

O principal fator de risco para a hipocondria diz respeito ao modo e nível de funcionamento mental, sendo mais comum em pessoas com menor capacidade abstrativa, menor capacidade simbólica, o que se traduz em menor capacidade de tolerar a ambiguidade das situações e menor tolerância as incertezas inerentes da existência humana. A história familiar pode contribuir na medida em que crianças que cresceram em ambientes onde haviam familiares portadores de doenças crônicas, crescendo em meio a adultos poliqueixosos, desenvolvem uma predisposição maior a deslocar seus conflitos psíquicos para a fantasiação hipocondríaca.

A exposição constante a informação médica pode trazer a tona hipocondria em pessoas pré dispostas, com perfis mais ansiosos e as características de capacidade de mentalização mencionadas anteriormente. A hipocondria tende a incidir mais em populações expostas a epidemias e em estudantes da área da saúde, ou consumidores de grande quantidade de informação fitness na web.

Muitas vezes são os familiares os primeiros a reconhecerem o seu parente hipocondríaco. O paciente hipocondríaco pode demorar muito tempo a ter o “insight” (dar se conta) de sua condição, vivendo com intensidade em nível de “quase certeza” de ser portador daquela doença que sua fantasia hipocondríaca criou. Já no “delírio somático”, uma condição mais francamente psicótica, o sujeito vive a “certeza” de portar a doença. Uma frequente ida à médicos e plantões, bem com visitas recorrentes a clínica por sempre os mesmos motivos, a despeito de exames repetidamente negativos.
O paciente pode não perceber o momento crítico de procurar a ajuda não mais para alívio de suas dúvidas hipocondríacas, e sim para tratar a própria hipocondria. E o momento a procurar é quando a preocupação se torna mais óbvia de que uma preocupação normal e realista com a saúde, e quando denota um dispêndio de grande esforço, dinheiro, tempo e energias, afetando a capacidade produtiva e de lazer do sujeito.
O modo correto de ajudar um hipocondríaco é evitar os dois extremos: nem o de concordar com que todo e qualquer questionamento do paciente sobre sua saúde seja sempre investigado (entrar na fantasia dele), nem dizer que “isso é só coisa de sua cabeça” sem demostrar o mínimo de empatia pelo fato de que a pessoa tem e vive um sofrimento real, porém com leitura deslocada e equivocada.

A somatização, a hipocondria e o transtorno psicossomático tem cura ?
A cura de algo equivaleria a cessar de existir ante uma ação eficaz em combatê-la: neste sentido, nenhum transtorno mental tem “cura”, segundo essa acepção.
A hipocondria pode ser considerada uma condição psiquiátrica em si, bem como o sintoma de outra condição psiquiátrica. Há pacientes cronicamente hipocondríacos, e há também pacientes que desenvolvem sintomas hipocondríacos somente no curso de episódios de depressao unipolar, depressao bipolar, transtorno do pânico agudizado ou TOC agudizado: neste caso, o tratamento indicado é o do transtorno associado, que pode ser medicamentoso, ou psicoterápico.
A psicoterapia cognitivo comportamental é útil e eficaz quando a sintomatologia é mais intensa e o nível de envolvimento do paciente com ações compulsivas de busca por alívio da dúvida (consultas médicas em excesso, exames em excesso) é muito desgastante, ajudando-o a conter o impulso e diminuindo o impacto negativo dessas ações sobre a sua rotina.
A psicoterapia psicanalítica tende a ser mais prolongada, os resultados tendem a ser mais lentos, porém com efeitos mais duradouros e persistentes, por poder identificar o conflito psíquico de base e fortalecer o ego, promovendo melhora nas capacidades simbólicas e abstrativas, que estão na base da fragilidade que predispõe a hipocondria.

Chegar ao reconhecimento de que há um exagero na preocupação com doença já é o primeiro passo importante na melhora do quadro: é importante que o paciente reconheça a importância de consultar o psiquiatra, dando o devido crédito ao clínico geral, quando após bem atendido e investigado pelo mesmo, ele faz a indicação da busca por psicólogo ou psiquiatra. Aos familiares, a recomendação é em evitar os dois extremos acima mencionados. E principalmente, por parte de todos, jamais subestimar o impacto e a importância que tem tratar um transtorno mental, trazendo grande alívio e um grande ganho em qualidade de vida para essas pessoas.

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